24 de outubro de 2022

Sempre fui vista como forte. Seja pela aparência, seja pelo jeito, seja pela história de vida. Nascida e criada pela mãe e pela avó, rodeada de mulheres fortes, com poucas influências masculinas, sem muito dinheiro, tendo que lutar por todos os sonhos, mulher, preta. Como não ser forte?

Quem me conhece diz as mesmas coisas sobre mim: determinada, divertida, sincera. Eu poderia falar sobre cada um dos adjetivos, mas no fim das contas, todos se juntam como doces dentro de um bexigão de festa, e quando você o estoura sai a mesma coisa: mulher forte.

Sobre o meu jeito dizem isso. E sobre a aparência também. Hoje em dia eu me reconheço muito mais ao me olhar no espelho, me sinto “mais eu mesma do que nunca”, e isso é bom. Há uns anos atrás minha imagem era de menininha (eu de fato era uma menininha), e aos poucos essa imagem foi crescendo, como um leão abrindo a boca lentamente pra rugir, e hoje eu sou o estrondoso “roar“.

Em 2017, último ano do Ensino Médio, eu tinha 17 anos e fui convidada pela Bruna Della (conexão incrível que só foi possível por conta dos nossos blogs) a participar de uma apresentação que fazia parte de um trabalho da faculdade dela. Na época, ela estava se formando em Artes Cênicas, e eu queria seguir o mesmo caminho — o que não aconteceu, mas isso é assunto pra outro post.

Éramos eu e mais duas meninas. O primeiro passo foi enviar um questionário sobre nós para que nossos amigos respondessem. Não lembro exatamente quais eram as perguntas, mas eles precisavam dizer músicas, cores, objetos e outras coisas que relacionavam a nós.

Tivemos dois ou três encontros antes da apresentação para nos conhecermos e entendermos a proposta. Lembro de um em específico onde de fundo ficava tocando um mashup com as várias músicas que enviaram no questionário, e nós precisávamos ficar repetindo um movimento que fizesse com que as pessoas lembrassem de nós várias e várias vezes. Por exemplo, se as respostas diziam que sou beijoqueira, eu deveria ficar mandando beijos várias e várias vezes. Foi cansativo demais.

Chegou o dia da apresentação. Antes do público entrar na sala, eles viram fotos minhas e das meninas, e tinham alguns objetos à disposição. Em consenso, eles deveriam relacionar um objeto a cada pessoa. A minha foto era a que está logo abaixo e o objeto foi unânime: martelo.

Foto minha de perfil, a qual viram e nomearam "Mulher-martelo"

Nesse dia eu virei a mulher-martelo.

A apresentação seguia a mesma linha de raciocínio do encontro que mencionei: com o objeto que me destinaram, eu precisava ficar repetindo uma movimentação. Fiquei martelando o ar diversas vezes enquanto tocava o mashup de músicas, e sempre que o volume da música aumentava, o movimento precisava ser mais rápido. Quando o volume diminuía, o movimento podia ser mais lento.

O grande insight por trás de toda essa apresentação era: as pessoas nos vêem de um jeito, que pode até parecer legal, mas se a gente viver o tempo todo fazendo o que vêem e o que esperam de nós, isso fica chato e nós deixamos de ser quem somos e fazer o que realmente queremos.

Eu nunca esqueci o título de “mulher-martelo”, acho que muitas mulheres acabam tendo que carregar ele também. É legal ser vista como uma pessoa forte, mas a verdade mesmo, do fundo do meu coração, é que cansa demais ser forte e não dá pra ser martelo o tempo todo.

Mulheres-martelo têm que enfrentar as dificuldades com um sorriso no rosto. Mulheres-martelo têm que estar sempre bem e motivar as pessoas à sua volta. Mulheres-martelo têm que tomar as rédeas das situações. Mulheres-martelo têm que ser proativas. Mulheres-martelo têm que ser inteligentes. Mulheres-martelo não podem errar. Mulheres-martelo assustam os homens. Espera-se muito das Mulheres-martelo, mas se acha que elas são “demais”, exageradas.

Você não precisa enfrentar suas dificuldades sozinha, muito menos segurar suas emoções. Alguns dias serão ótimos, outros péssimos, e tudo bem. Faça o que você consegue dentro do que for possível no momento. Seja curiosa. Se permita errar. Você não é exagerada, só não encontrou alguém que seja maduro o suficiente pra lidar com pessoas bem resolvidas (e vamos combinar que é muito melhor seguir só do que com gente que vai trazer problema, né?).

Sejamos Mulheres-martelo, mas sejamos do nosso jeito.


Eu já planejava fazer esse texto e, coincidentemente, escutei um episódio do podcast Jout Jout de Saia que fala sobre as expectativas dos outros sobre nós. É curtinho, tem pouco mais de 8 minutos. Se você quiser esutar, é só dar o play abaixo:

escrito por
Vit

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